Violência silenciosa contra idosos: quando o abandono emocional também adoece



Junho Violeta alerta para formas de violência que não deixam marcas visíveis, mas comprometem a saúde física e emocional da população idosa


O Brasil tem mais de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a expectativa é que esse grupo represente quase um terço da população nas próximas décadas. Diante do envelhecimento da população, especialistas alertam para um problema muitas vezes invisível: a violência emocional contra idosos.  

Marcada pelo abandono afetivo, isolamento social, falta de escuta, infantilização e exclusão digital, essa forma de violência pode provocar impactos significativos na saúde física e mental e, em muitos casos, pode passar despercebida até mesmo pelos familiares. A discussão ganha ainda mais relevância durante o Junho Violeta, campanha nacional e internacional de conscientização e combate à violência contra a pessoa idosa.  

Embora as agressões físicas costumem receber maior atenção, especialistas reforçam que o sofrimento emocional também pode adoecer e comprometer a qualidade de vida na terceira idade. 

Segundo a geriatra Verônica Reis, profissional do Hospital Madrecor, unidade da Hapvida em Uberlândia, os efeitos do abandono emocional ultrapassam o aspecto psicológico e podem desencadear alterações orgânicas importantes.  
'O abandono emocional não afeta apenas o bem-estar psicológico, ele também produz repercussões físicas importantes. Quando o idoso vivencia sentimentos persistentes de solidão, rejeição ou falta de acolhimento, há aumento dos níveis de hormônios relacionados ao estresse, como o cortisol. A longo prazo, isso pode favorecer alterações da pressão arterial, piora da imunidade, distúrbios do sono, perda de apetite e até agravamento de doenças crônicas já existentes%u2019, explica Reis. 

A médica destaca que a solidão e a negligência afetiva podem se manifestar por meio de sintomas aparentemente desconectados do sofrimento emocional. Entre eles estão cansaço excessivo, alterações de sono, perda ou ganho de peso, dores generalizadas e piora no controle de doenças como diabetes e hipertensão. 'Em muitos casos, o corpo manifesta aquilo que o idoso não consegue expressar verbalmente%u2019, afirma a geriatra. 

Solidão não é sinônimo de estar sozinho 

O abandono emocional é uma das formas mais silenciosas e invisibilizadas de violência contra a pessoa idosa, segundo alerta a psicóloga da rede Hapvida em Divinópolis (MG), Júlia Alvarenga de Sousa. De acordo com a profissional, a ausência de acolhimento, escuta e pertencimento pode gerar intenso sofrimento psíquico.  

'O abandono emocional é uma forma silenciosa, e muitas vezes invisibilizada, de violência endereçada a uma pessoa idosa, uma vez que essa atitude está atrelada à ausência de fatores importantes como escuta, presença, acolhimento e sentimento de pertencimento%u2019, explica. 

A especialista ressalta que existe uma diferença importante entre estar sozinho e sentir solidão. Enquanto a primeira condição é objetiva, a segunda está relacionada à qualidade das relações e dos vínculos afetivos. 'Há idosos que vivem sozinhos e mantêm vínculos afetivos significativos, enquanto outros estão cercados de pessoas, mas sentem-se solitários. A solidão aparece quando faltam trocas, escuta e vínculos emocionais%u2019, observa Sousa. 

Isolamento pode acelerar adoecimento 

As consequências do isolamento social dos idosos, segundo a geriatra Verônica Reis, podem estar associadas à piora de diversas condições de saúde e ao aceleramento do declínio cognitivo. 'A interação social estimula funções cerebrais importantes, como memória, atenção e linguagem. Quando o idoso permanece isolado por longos períodos, essa estimulação diminui, favorecendo um declínio cognitivo mais acelerado%u2019, afirma a médica. 

Os impactos também afetam diretamente a autoestima, a autonomia e o desejo de viver, explica a psicóloga Júlia de Sousa. %u2019O desejo de viver está relacionado à existência de vínculos, sentido e reconhecimento. Quando a vida se reduz apenas à sobrevivência, ocorre uma invisibilização da experiência subjetiva na terceira idade%u2019, reforça. 

Alguns fatores como o isolamento repentino, a perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono e no apetite, irritabilidade, tristeza persistente e falas relacionadas à inutilidade ou desesperança podem ser considerados sinais de sofrimento emocional. 

Exclusão digital e infantilização  

Outro aspecto que merece atenção é a exclusão digital. Em uma sociedade cada vez mais conectada, a dificuldade de acesso ou de utilização de tecnologias pode ampliar o sentimento de isolamento dos idosos. 

'Grande parte das relações, serviços e formas de comunicação acontecem atualmente no ambiente digital. Quando o idoso não consegue acessar esse espaço, é possível que ele vivencie sentimentos relacionados ao afastamento social. Nesse sentido, a inclusão digital também pode funcionar como uma forma de inclusão afetiva e social%u2019, destaca Júlia de Sousa. 

Além disso, a psicóloga alerta para a infantilização da pessoa idosa, prática comum em muitas famílias, que pode representar uma forma de violência emocional. 'Tratar o idoso como uma criança, ignorar sua autonomia ou tomar decisões sem consultá-lo pode gerar sofrimento emocional. O envelhecimento não elimina a capacidade de escolha e o direito à participação nas decisões sobre a própria vida%u2019, ressalta. 

Cuidado vai além da saúde física 

As especialistas concordam que, na terceira idade, preservar a saúde emocional é tão importante quanto cuidar da saúde física. Mais do que oferecer assistência material ou acompanhar consultas médicas, é fundamental garantir presença, diálogo e respeito.  

'O acolhimento emocional funciona como um importante fator de proteção psíquica e emocional. Idosos que se sentem escutados, pertencentes e afetivamente reconhecidos costumam apresentar melhor adesão aos tratamentos, maior participação na vida e menor sofrimento emocional%u2019, afirma a psicóloga da Hapvida. 

Já a geriatra Verônica Reis enfatiza que pequenas atitudes fazem grande diferença no processo de envelhecimento saudável.  

'Conversar, demonstrar interesse pelas histórias e opiniões do idoso, estimular sua participação em atividades sociais e respeitar sua autonomia fortalecem vínculos afetivos e ajudam a preservar a saúde mental. O cuidado vai muito além dos medicamentos; ele passa, sobretudo, pelas relações humanas.%u2019




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